Há sempre uma primeira vez para tudo

Miradouro de Santa Iria - Pedalaçores

Desde o início do Pedal’Açores, e já lá vão 28 dias, tudo tem corrido maravilhosamente bem e nesta jornada fazendo os Açores a pedalar só me posso de lembrar de bons momentos.

Lugares, pessoas, sensações, cheiros e emoções não faltaram nestes quase 1.000km já percorridos e cada dia que passa vai aumentando a saudade dos lugares por onde passei e com vontade de começar tudo de novo. Deve ser o meu saudosismo inato a revelar-se.

Não é tempo para conclusões mas nas várias etapas do Pedal’Açores e com o passar do tempo sinto que deixei-me levar pela beleza dos Açores e de tão encantado que fui ficando por instantes perdi-me e o sentido do projecto ficou meio diluído algures entre turismo e mobilidade mas mesmo assim acho que estou a cumprir o objectivo e por vezes uma chamada de atenção dos amigos é importante para voltarmos a encontrar o norte 🙂

Ciclovia - Rabo de Peixe - Pedalaçores

Nas últimas etapas o acesso a Internet foi condicionado e por isso este post vai condensar um bocado o que se passou entre os Mosteiros e o Nordeste.

A vinda dos Mosteiros para São Vicente Ferreira em São Miguel foi pacata e relativamente fácil. Não tive percalços no caminho e o pouco tráfego naquela zona não trouxe grandes encontros e com os poucos carros que cruzei não tenho nada a apontar.

Sendo maioritariamente frequentado pelos lavradores o caminho é tranquilo e com um bom piso e posso contar com os dedos de uma mão os carros e carrinhas que não reduziram ao me ultrapassar. Só ao me aproximar das Capelas é que começou a ficar mais movimentado e consequentemente a paciência dos condutores diminuiu.

Chá Gorreana - Pedalaçores

Durante a jornada ainda tive direito a fotografias feitas pelo Eduardo do jornal Terra Nostra… foi fixe.

Após passar a noite em São Vicente Ferreira em casa de amigos segui para o Porto Formoso e fui surpreendido no caminho por uma ciclovia que dá a volta por fora da freguesia de Rabo de Peixe em São Miguel. Apelidei-a de CRERP – Circular Regional Exterior de Rabo de Peixe – e fiquei surpreendido com a obra que deve ter deixado a freguesia mais tranquila e proporciona um bom espaço para circulação para quem quer passar de bicicleta por ali e até eu que sou um pouco avesso a segregação gostei da obra ao ver as coisas assim feitas de raiz.

Pneu novo - Pedalaçores

Depois de umas voltas pela Ribeira Grande, acabei por me entender com a saída para o Porto Formoso utilizando a estrada regional antiga. As obras da Scut acabaram por modificar um bocado a paisagem que conhecia e tive que andar um bocado a procura mas correu bem e depois de passar pelo mítico Miradouro de Santa Iria cheguei ao Porto Formoso sem maiores dificuldades.

A Praia dos Moinhos no Porto Formoso é lindíssima e lá em baixo tem um bar/restaurante com um ambiente muito agradável e não fosse a simpatia da pessoa que me atendeu teria lá ficado um bocadinho a curtir a paisagem e a comer algo. Foi difícil arrancar a informação de onde era o parque de campismo, não houve grande vontade e para alguém que lida com o público a sua postura deixou um pouco a desejar mas consegui.Desta maneira segui para me instalar e preparar o jantar e assim foi.

Depois de uma noite de chuva o dia amanheceu bonito e a etapa até o Nordeste prometia ser tranquila.

Nordeste - Pedalaçores

Depois de um chá na Gorreana cheguei sem problemas até a Lomba da Maia e fiz uma breve pausa para lanche, Internet e tive que esperar a chuva passar, seguindo caminho. E foi nesta viagem tranquila, após a chuva passar que o Pedal’Açores teve o seu primeiro furo e tive que fazer um pit-stop de emergência para reparará-lo.
Também descobri um raio partido que explicou o ligeiro empenamento da roda… espero que não piore.

Entre muitas grotas e um visual exuberante cheguei ao Nordeste e hoje era suposto seguir para as Furnas, mas temos um problema com a roda traseira e devido a uns raios que se partiram vou ter que ir “emergencialmente” para Ponta Delgada e deixar a roda aos cuidados do Bike Doctor da Monbike.

Da cidade…

Ponta Delgada - Pedalaçores

Rua dos Mercadores – Ponta Delgada

Depois de uma conversa agradável com os amigos da Fajã de Cima de Ponta Delgada e de uma noite mais do que bem dormida foi hora de continuar a jornada.

O ritmo da cidade é sempre diferente e passar por Ponta Delgada numa segunda-feira de manhã foi relembrar que a vida pode andar mais rapidamente.

Antes de partir para os Mosteiros fiz questão de fazer umas voltas pela cidade-grande e pedalar por ali para perceber e sentir um ritmo que já havia esquecido pois nestes mais de 20 dias de viagem a paisagem calma e relaxante dos Açores e o facto de estar a pedalar nos convidar a um apreciar da vida o mais “slow” possível.

Vi um pouco de tudo na cidade… pessoas que esperavam pela bicicleta, pessoas que sorriam, pessoas apressadas a acelerar e a apitar para mim e para a minha companheira de duas rodas, enfim, de maneira geral não senti hostilidade por parte dos condutores de Ponta Delgada mas também acho que em alguns momentos houve uma certa intolerância. As ruas estreitas da cidade muitas vezes não facilitam a convivência pacífica destas 3 entidades (automóveis, peões e bicicletas) e em alguns pontos existe alguma confusão em se entender se determinadas zonas são pedonais ou não.

Portas do Mar - Pedalaçores

Foi o caso da Rua dos Mercadores em Ponta Delgada, que está toda ao mesmo nível e não se compreende bem o porquê deste ar de via pedonal quando ainda é permitida a passagem de automóveis.
Como não podia deixar de ser, fui até as Portas do Mar dar uma voltinha e conhecer uma das obras emblemáticas do governo dos Açores. Existe lá uma ciclovia que percorre toda a marginal e que está razoavelmente bem sinalizada, entretanto existem um contentores subterrâneos que representam um certo perigo e o vão existente no pavimento pode causar algum acidente. Quem fez aquilo certamente não anda de bicicleta, ou então tem pneus muito grossos 🙂

Mosteiros - Pedalaçores

Mais umas voltas por ali e depois de ter sido advertido por um segurança por andar numa zona proibida a animais, skates e bicicletas senti que era hora de seguir viagem e deixei Ponta Delgada em direcção aos Mosteiros.

A viagem foi muito agradável e quanto mais me afastava da cidade mais tranquilo o trânsito foi ficando e, sem pressa, cheguei cheguei aos Mosteiros onde tinha já amigos à espera.

É lindo ver a vila dos Mosteiros ao longe e a medida que nos aproximamos do mar vamos dando conta da dimensão das rochas que afloram do Atlântico com uma imponência impressionante.

Foi uma etapa curta e com direito a mais uma cama de verdade e companhia super agradável. Obrigado as Casas do Porto pelo apoio.