São Miguel, a maior etapa do Pedal’Açores

Lagoa das Furnas - PedalaçoresNo Domingo passado, dia 1 de Setembro, concluímos uma etapa importante do Pedal’Açores e a viagem de 65km das Furnas para Ponta Delgada marcou o fim da nossa jornada pela ilha de São Miguel a pedalar.

Foi um total de 280km percorridos na maior ilha dos Açores com muita alegria, surpresas e encontros fantásticos à mistura e com um final revigorante.

O nosso último trajecto foi diferente pois tive dois companheiros de pedal que vieram ter comigo às Furnas e que me acompanharam até Ponta Delgada.

Depois de desmontado o acampamento, fiz um passeio pela linda vila das Furnas e entre um jardim e outro e aquele delicioso barulhinho da água a correr pelas ribeiras, comecei a sentir no ar um cheirinho delicioso a pão. Fui ao encontro da fonte do aroma e encontrei uma porta que dizia fabricar o bolo levedo mais antigo das Furnas. Continuar a ler

Pedalar pela noite faz pensar

Vila de Nordeste - São Miguel - PedalaçoresApós resolver o problema dos raios partidos e de volta a São Pedro Nordestinho, em São Miguel, chegou a hora de dizer adeus à familia Pimentel e seguir viagem para as Furnas. Este foi um trajecto relativamente longo mas os 49.99km que me separavam do meu próximo destino correram na perfeição.

Sob o olhar atento do Paulo, terminei de montar a roda na bicicleta e voltei a condicionar a carga. Eram sete horas quando deixei a pequena vila e o sol ainda brilhava, entretanto as nuvens por cima do Pico da Vara, o ponto mais alto de São Miguel, prometiam antecipar o pôr-do-sol pois estavam muito densas.

Nordeste - Furnas - PedalaçoresEsta viagem foi a única que fiz durante a noite e eu estava um pouco apreensivo porque não me lembrava muito bem do caminho e todas as pessoas com quem falei diziam que era muito longe.

O conceito de muito longe aqui nos Açores vai variando de ilha pra ilha e é fácil de entender… o que é considerado longe na Graciosa não é considerado da mesma forma em São Miguel, mas esta noção daquilo que é perto e daquilo que é longe varia ainda mais quando incluimos na equação a variável bicicleta.

A partir do momento em que a bicicleta aparece como meio de transporte é comum ouvir coisas do tipo: nunca mais lá chegas, só chegas lá amanhã, isso é muito complicado, etc… e quando pergunto o por quê as pessoas nunca explicam muito bem as razões, talvez por vergonha, por acharem que não conseguem ou quem sabe por nunca terem pensado no assunto. Irremediavelmente o dizer que ir de carro é mais fácil vem sempre à baila.

Tudo proibido - Ponta do Sossego - PedalaçoresPassei pela Ponta da Madrugada, pela Ponta do Sossego, ambos míticos miradouros de São Miguel e acho que por instantes fui ali o ciclista mais oriental dos Açores.  Não pude deixar de notar que a entidade responsável pela manutenção dos miradouros não incentiva muito alguns hábitos saudáveis. Não se pode jogar a bola, não se pode pisar a relva, não se pode andar de bicicleta e não podemos andar com animais nestes miradouros mas acho que fumar é permitido. Engraçado que por conta de algumas pessoas muitas sejam prejudicadas.

Quando passei pela Povoação já era noite e a freguesia estava em festa, toda iluminada, com gente na rua e com uma vida incrível. Passei por pelo menos dois parques de campismo completamente lotados e pelo caminho ví inúmeras tendas montadas à beira da estrada. Era mesmo muita gente.

A medida que subia as lombas, em direcção às Furnas e vendo todo aquele movimento fiquei a pensar neste vai e vem das pessoas e à medida que avançava, os pensamentos sobre as motivações e necessidades que faziam com que as pessoas se locomovessem de um lado para o outro começaram a brotar e à medida que pedalava noite adentro estive a pensar na enorme transformação que os carros e o petróleo causaram na vida das pessoas.

Estive a pensar no esfoço que era empregado antigamente para mover as pessoas e mercadorias de um lado para o outro e como era noite de festa na Povoação, ao ver todos aqueles carros a passar por mim foi inevitável pensar o que seria se aquela gente toda só pudesse lá chegar a pé ou de bicicleta. E ao refletir mais um pouquinho, cheguei a conclusão de que afinal os combustíveis não estão tão caros assim.

Não sei bem ao certo o peso extra que carrego na bicicleta, mas em média faço algo por volta 12km/h, o que significa que levaria mais ou menos 8 horas pra fazer 100km, ou seja, um dia inteiro de trabalho.  Agora imagine que um carro pequeno, ao fazer o trabalho de arrastar 1000 quilos de um lado pro outro (que é o seu peso) e que sendo económico consuma 5 litros aos 100km. Se este carro fizer a viagem em duas horas vai gastar os 5 litros e isto custará algo em torno de 7.5 Euros por duas horas de trabalho.

Quantas pessoas seriam necessárias para fazer o mesmo trabalho de levar 1000 quilos ao longo de 100km?

Viu como é barata a gasolina?

Furnas - PedalaçoresAcabei por chegar ás Furnas por volta das onze da noite e depois de umas voltinhas pela vila instalei-me no Parque de Campismo das Furnas. De lá ainda ouvia a música do arraial porque a vila também estava em festa mas o sentido de missão cumprida falou mais alto e depois de um belo duche e do jantar fui dormir a pensar no dia seguinte… o último da volta a São Miguel. Na próxima etapa terei companhia e vai ser mais uma vez diferente e divertido como têm sido até agora nestes 29 dias a pedalar pelos Açores.

Lembro a todos que nos acompanham que a minha bicicleta tem iluminação traseira e frontal e muitos reflectores nas rodas, pedais e na bagagem. Estes são acessórios muito importantes para quem quiser se deslocar durante a noite em zonas pouco iluminadas. Se não somos vistos não podemos ser respeitados.